quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Momento fala que eu te escuto: Quase diva

Os últimos meses, desde a minha última postagem, tem sido cheio de pendências, por isso a falta de posts.
Neste tempo ausente eu tirei férias em uma época que não pude fazer muita coisa por falta de companhia (ninguém merece, ano que vem tem que dá nordeste com o amor) mas descansei, e só Deus sabe o quanto precisava desse stop, portanto, não adianta eu reclamar, me valeu.
O fato é que perdi praia com a família, essa tem sido minha sina nos últimos anos, não posso reclamar também, pois tem me valido.
Devido a isso estou home alone esta semana, curtindo epifânias, fazendo planos do tipo girls just wanna have fun com as amigas, saboreando a comidinha da minha vó, ou seja, tô me virando da melhor maneira...
.... Mas eu tenho um carro chamado monza, vulgo tubarão, que ontem resolveu me deixar na mão em plena solidão, isso depois de um momento diva.
Momento diva:
Acordei 6:50 em ponto, sem soneca, tomei banho, fiz meu próprio café (raro), preparei um queijo quente e sai. No carro coloquei uns sambas antigos baixados outrora e estava indo feliz da vida ao trabalho, cantarolando: "A tristeza é senhora, desde que o samba é samba é assim..."
Momento fala que eu te escuto:
... Até que o carro morre, em pleno Paiva, e não liga mais. E o desespero, para quem eu ia ligar? Me surgiu na mente o tio Wilson que tem comércio próximo ao Paiva, liguei e ele foi me socorrer, buscou o mecânico, me emprestou o carrão dele para chegar ao trabalho e no fim deu tudo certo.
Daqui pra frente pensamento positivo para que o "tubarão" aguente até o fim das férias dos meus pais... Amém!


No próximo post eu farei um levantamento dos melhores e piores momentos de 2010. Nostálgico. Adoro.


A trilha sonora de hoje será "Condicional" dos Los Hermanos principalmente por causa do trecho:

"Os dias que eu me vejo só
São dias que eu me encontro mais
E mesmo assim eu sei tão bem
existe alguém pra me libertar."





Beijo de Um ser sendo.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Lavoura Arcaica

Hoje nas minhas andanças na blogsfera vi uma postagem sobre o filme "Lavoura Arcaica", dirigido pelo diretor Luis Fernando Carvalho e decidi publicar algo aqui no meu cantinho.
O filme é uma adaptação, diga-se de passagem fiel, do livro escrito pelo paulistano contemporâneo Raduan Nassar.
Conheci e fiz a leitura do livro na faculdade e me encantei, a obra é densa, com valores imorais para uma sociedade moralista. Nessa mesma época assisti ao filme.

Ambos são fantásticos, lindos, sublimes, chocantes. Pretendo ler e ver novamente a obra para escrever algo mais preciso aqui no blog, mas não podia esperar para postar algo assim, de momento.
A adaptação da obra para o cinema é fiel ao livro e por isso muita gente acha um filme parado e altamente reflexivo. Eu achei fantástico, as interpretações de Selton Mello, Raul Cortez, Leonardo Medeiros etc são surreais. As duas versões dessa obra são obrigatórias.


Segue trecho sobre "O tempo":


"O tempo é o maior tesouro que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo. (...) rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira. O equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; por isso, ninguém em nossa casa há de dar nunca, o passo mais largo que a perna: dar o passo mais largo que a perna é o mesmo que suprimir o tempo necessário à nossa iniciativa (...) pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas."


[Raduan Nassar Tempo Lavoura Arcaica]

Abaixo, Raduan Nassar por Raul Cortez Tempo Lavoura Arcaica:



Um beijo de Um ser sendo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Texto interessante

O texto abaixo foi publicado no TwitLonger por @GiseleJota e escrito por Renato Braga. Achei interessante, espero que gostem.

Segue texto:


Desculpem meus amigos, mas vou votar no Serra.

Cansei de ir ao supermercado e encontrá-lo cheio. O alimento está barato demais. O salário dos pobres aumentou, e qualquer um agora se mete a comprar, carne, queijo, presunto, hambúrguer e iogurte.

Cansei dessa história de PROUNI, que botou esses tipinhos, sem berço, na universidade. Até índio, agora, vira médico e advogado. É um desrespeito... Meus filhos, que foram bem criados, precisam conviver e competir com essa raça.

Cansei dos bares e restaurantes lotados nos fins de semana. Se sobra algum, a gentalha toda vai para a noite. Cansei dessa demagogia.

Cansei de ir em Shopping e ver a pobreza comprando e desfilando com seus celulares. Cansei dos estacionamentos sem vaga. Com essa coisa de juro baixo, todo mundo tem carro, até a minha empregada. "É uma vergonha!", como dizia o Boris Casoy. Com o Serra os congestionamentos vão acabar porque, como em S.Paulo, ele vai instalar postos de pedágio nas estradas brasileiras a cada 35 km e cobrar caro.

Desculpem mas Voto no Serra....

O governo reduziu os impostos para os computadores. A Internet virou coisa de qualquer um. Pode? Até o filho da manicure, pedreiro, catador de papel, agora navega, tem Orkut...Vergonha, vergonha, vergonha...

Cansei dessa história de facilitar a construção e a compra da casa própria (73% da população, hoje, tem casa própria, segundo pesquisas recentes do IBGE). E os coitados que vivem de cobrar aluguéis? O que será deles? Cansei dessa palhaçada da desvalorização do dólar. Agora, qualquer um tem MP3, celular e câmera digital. Qualquer umazinha, aqui do prédio, vai passar férias no Exterior. É o fim...

Também cansei dessa coisa de biodiesel, petroleo do pré-sal, de agricultura familiar. O caseiro do meu sítio agora virou "empreendedor" no Nordeste. Pode? Cansei dessa coisa assistencialista de Bolsa Família. Esse dinheiro poderia ser utilizado para abater a dívida dos empresários de comunicação (Globo, SBT, Band, RedeTV, CNT, Folha, Estadão, etc.). A coitada da "Veja" passando dificuldade e esse governo alimentando gabiru em Pernambuco. É o fim do mundo.

Vou votar no Serra. Cansei, vou votar no Serra, porque quero de volta as emoções fortes do governo de FHC, quero investir no dólar em disparada e aproveitar a inflação. Basta! Vou votar no Serra. Quero ver essa gentalha no lugar que lhe é devido. Quero minha felicidade de volta.

Renato Braga

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Brasil encantado com Palavra [En]cantada

Há algumas postagens eu escrevi sobre o documentário "Palavra [En]cantada" e através desse post a Mary pediu que eu fizesse um ensaio mais elaborado para ser publicado no MS News de Abril e decidi, só hoje, compartilhar na blogsfera, espero que gostem:


Brasil encantado com Palavra [En]cantada

Por * Marcela Oliveira

“(...) o caminho de silêncios ganha direção, a música dá forma à palavra como se não fosse possível distingui-las. Porque a palavra é imagem que não tem forma, e a música, forma que não tem imagem. Da união nasce um significado. Reconhecemos na letra a melodia, e vice-verso, feito a expressão de uma coisa só.” A música da letra, Fábio Lucas.

O documentário de longa-metragem Palavra [En]cantada (2009), dirigido por Helena Solberg, é um super momento epifânico.


Como é bom e gratificante ver músicos, linguistas e poetas de renomes em um mesmo filme. O documentário passa por vários caminhos em que a música e a poesia percorreram no Brasil, o que nos dá a sensação de que música, história e lirismo podem e devem caminhar juntos.


O filme nos traz depoimentos a respeito dos trovadores; comentários sobre os antigos carnavais de rua e do morro, com destaque para Noel Rosa e Cartola; entendimentos sobre o surgimento da Bossa Nova com João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes entre outros; para logo mais nos fazer deparar com a grande novidade do tropicalismo com Tom Zé, Caetano Veloso, Gilberto Gil etc; até chegarmos ao que conhecemos de música hoje, em um momento contemporâneo de diversidade de estilos.

O documentário conta com participações de primeira linha do cenário artístico musical brasileiro: Chico Buarque, Arnaldo Antunes, Luiz Tatit, Maria Bethania, Tom Zé, Adriana Calcanhoto, José Miguel Wisnik, Jorge Mautner, Antônio Cícero, Ismael Silva, Paulo César Pinheiro, Lirinha e Martinho da Vila, debatendo sobre a construção do fazer poético e musical no Brasil.

Ver Chico rindo zombeteiro de sua composição de Choro Bandido; Tom Zé (sempre exagerado e belo) caracterizando sua primeira impressão das canções de Dorival Caymmi; Caetano, em imagem de arquivo, na época de Alegria Alegria, tentando explicar a modernidade de sua composição e definindo a cultura pop e massificada da época; Lenine quase aos prantos por causa das variações fonéticas de nossa língua; Maria Bethania caracterizando-se como intérprete amante da poesia; Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, dizendo o quanto a poesia pode e deve ser simples e bela ao mesmo tempo; e perceber que hoje muitos seguem o sempre novo e inesquecível Tropicalismo não tem explicação. É extraordinário.

Para quem se identifica com música, arte e literatura, e também para quem tem interesse na nossa vasta cultura literal e musical, Palavra [En]cantada é obrigatório.

Recomendado para a vida.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Momento Catártico: Mary & Max

Na postagem de hoje quero falar um pouco sobre o presente epifânico e catártico que a Priscila me enviou por correio há algumas semanas: a animação de longa-metragem no estilo stop-motion "Mary & Max", escrita por Adam Elliot e com personagens feitos de massinha.

Fiquei encantada com o filme, que tem a história centralizada nos personagens que da nome ao título (Mary e Max). A temática da animação conta com reflexões existenciais, problemas familiares, pensamentos filosóficos, sexualidade entre outros. Portanto, apesar de ser uma animação, creio que não seja recomendado a crianças muito novas. Aliás, o filme está longe de ser uma animação nos moldes da Disney/ Pixar, pois os tons são obscuros, os personagens altamente caricatos, há sim a riqueza de detalhes nos cenários, mas com certa deformidade.

Mary Daisy Dinkle, 8 anos, é uma menina solitária que vive na Austrália com a mãe que é alcoólatra e cleptomaníaca e com um pai lunático. Por causa deles ela acredita que os bebês em seu país nascem em canecas de cerveja. Certo dia, ao visitar com a mãe uma loja/ correio (não me lembro ao certo) Mary tem a ideia de enviar uma carta a um destinatário desconhecido para saber como os bebês nascem na América.

O destinatário é Max Jerry Horowitz, um americano de Nova Iorque, 44 anos, solitário, gordo, autodidata, com uma vida medíocre e portador da doença Síndrome de Asperger (bastante abordado no filme). Quando Max recebe e lê a carta de Mary passa por uma crise de ansiedade, mas responde esclarecendo todas as dúvidas da garota.

Apesar de certa vivência/ experiência do personagem Max e de toda a expectativa de uma vida inteira pela frente da personagem Mary, eles são sujeitos que se complementam. Mary leva sentido à vida de um quarentão solitário e Max passa à Mary a maturidade necessária, tanto que ela decide especializar-se na doença Síndrome de Asperger para ajudar o amigo.

A partir da troca de cartas começa uma amizade por correspondência que dura 20 anos, com direito a altos e baixos, alegrias e tristezas desses sujeitos tão verossímeis. Tenho vontade de escrever contando cada detalhe, cada cena, mas recomendo que todos assistam e sintam o que o filme transmite. Vale à pena.


Obs.: Eu, particularmente, tive uma catarse muito forte, uma identificação enorme com estes personagens, com direito a chororô e insônia (daquelas que o pensamento invade e não nos deixa dormir).




segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Lima Barreto: Epifania e Catarse pura


Neste fim de semana a minha amiga Marília, a famosa Mary, esteve em São Paulo e assistiu a peça de teatro "Policárpio Quaresma", do diretor Antunes Filho, inspirado na obra de Lima Barreto.


O que isso tem a ver comigo?


Muita coisa, ou talvez tudo, pois me fez vir à mente, já esquecida, esse personagem tão interessante da nossa literatura, esse escritor tão esquecido pela grande maioria.


Na faculdade, quando entramos no realismo/ pré-modernismo fizemos a leitura de "Clara dos Anjos" e "Triste Fim de Policarpo Quaresma" e agora eu decidi que por curiosidade ou respeito, ainda não meditei sobre isso, preciso ler novamente essas obras, preciso ler a nossa literatura, pois me faz bem, me faz pensar.


Lima Barreto, pelos seus ideais e incorformismo de uma sociedade brasileira já tão problemática em sua época, criou Policarpo Quaresma, tão patrióta, tão culto e tão ingênio, como muitos de nós, que sonhamos com um Brasil justo, que amamos nossa história, apesar dos pesares. Espero que não tenhamos um triste fim como o de Policárpio e tantos outros que acreditaram na justiça por um país justo.

Lima é atual. Simples. Fantástico.


A Mary trouxe um material lindo sobre a peça, com muitas citações, ensaios e artigos sobre Lima Barreto e sua obra catártica. Muito interessante. Acho digno compartilhar algumas dessas epifanias:


“A arte literária se apresenta como um verdadeiro poder de contágio que a faz facilmente passar de simples capricho individual, para traço de união, em força de ligação entre os homens (...) a Literatura reforça o nosso natural sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes” [Prefácio "Clara dos Anjos"]



Elogio da morte


Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte. É a destruição contínua e perene que faz a vida.

A esse respeito, porém, eu quero crer que a Morte mereça maiores encômios.

É ela que faz todas as consolações das nossas desgraças; é dela que nós esperamos a nossa redenção; é ela a quem todos os infelizes pedem socorro e esquecimento.

Gosto da Morte porque ela é o aniquilamento de todos nós; gosto da Morte porque ela nos sagra. Em vida, todos nós só somos conhecidos pela calúnia e maledicência, mas, depois que Ela nos leva, nós somos conhecidos (a repetição é a melhor figura de retórica), pelas nossas boas qualidades.

É inútil estar vivendo, para ser dependente dos outros; é inútil estar vivendo para sofrer os vexames que não merecemos.

A vida não pode ser uma dor, uma humilhação de contínuos e burocratas idiotas; a vida deve ser uma vitória. Quando, porém, não se pode conseguir isso, a Morte é que deve vir em nosso socorro.

A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos. de independência; ela só quer acompanhadores de procissão, que só visam lucros ou salários nós pareceres. Não há, entre nós, campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. Tudo aqui é feito com o dinheiro e os títulos. A agitação de uma idéia não repercute na massa e quando esta sabe que se trata de contrariar uma pessoa poderosa, trata o agitador de louco.

Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo.

Le Bon dizia isto a propósito de Maomé, nas suas Civilisation des arabes, com toda a razão; e não há chanceler falsificado e secretária catita que o possa contestar...

São eles os heróis; são eles os reformadores; são eles os iludidos; são eles que trazem as grandes idéias, para melhoria das condições da existência da nossa triste Humanidade.

Nunca foram os homens de bom senso, os honestos burgueses ali da esquina ou das secretárias chics que fizeram as grandes reformas no mundo.

Todas elas têm sido feitas por homens, e, às vezes mesmo mulheres, tidos por doidos.

A divisa deles consiste em não ser panurgianos e seguir a opinião de todos, por isso mesmo podem ver mais longe do que os outros.

Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas.

O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião .de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para própria felicidade da espécie humana.

Entretanto, no Brasil, não se quer isto. Procura-se abafar as opiniões, para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes.

Os órgãos de publicidade por onde se podiam elas revelar, são fechados e não aceitam nada que os possa lesar.

Dessa forma, quem, como eu nasceu pobre e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência, só tem que fazer elogios à Morte.

Ela é a grande libertadora que não recusa os seus benefícios a quem lhe pede. Ela nos resgata e nos leva à luz de Deus.

Sendo assim, eu a sagro, antes que ela me sagre na minha pobreza, na minha infelicidade, na minha desgraça e na minha honestidade.

Ao vencedor, as batatas!


Marginália - Lima Barreto (19-10-1918)


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