sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Lista epifânica

Eu vivo de momentos epifânicos, e esses momentos passam por fases que podem durar de semanas a meses. Hoje resolvi listar (aleatoriamente) o que tem me dado momentos epifânicos ultimamente:


* Ouvir Luiz Tatit/ Grupo Rumo e músicas do Cartola (sim, baixei músicas do mestre)

* A leitura de "Leite Derramado" do Chico Buarque (fantástico)

* Ir ao teatro com mais frequência (graças a Marília)

* Facebook (tô fuçando mais e gostanto)

* Twitter (isso realmente é viciante)

* Petiscos com amigos das antigas em casa (como é bom)

* Brincar, dançar, pular com minha sobrinha Beatriz (ser criança é muito bom)

* Butecos

* O filme de animação Mary e Max (em breve texto sobre ele aqui no blog)

* Glee (é engraçado)

* Leituras sobre a teoria da Comunicação (cedidas gentilmente pela Mari)

* Blogosfera (muita coisa boa)


Bom, por enquanto é isso, tenho certeza de que outra hora vou ler e ver que faltou alguma coisa, mas fazer o que? A vida é assim. Viva a epifânia. Viva a catarse. Viva as fases da Vida.

Por fim, a trilha da postagem de hoje - "O mundo é um moinho" do mestre Cartola:






quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Momento Epifânico: Pé de Nabo [Palavra Cantada]

O momento epifânico de hoje é uma delícia.

Acho que a maioria já ouviu alguma canção da Palavra Cantada, selo que foi criado em 1994 por Sandra Peres e Paulo Tatit com o intuito de moderlizar as canções infantis.

Abaixo, a discografia completa:

“Canções de Ninar” (1994); “Canções de Brincar” (1996); “Cantigas de Roda” (1998); “Canções Curiosas” (1998); “MilPássaros”(1999); “Noite Feliz” (1999); “Canções do Brasil” (2001); “Meu Neném” (2003); CD e DVD “Palavra Cantada 10 anos” (2004); DVD “Clipes da TV Cultura”; “Pé com Pé” (2005); DVD "Canções do Brasil" (2006); DVD "Pé com Pé"(2007); CD "Carnaval Palavra Cantada"(2008); "Palavra Cantada Tocada"(2008); "Canciones Curiosas - palabra cantada en español"(2008).

Para maiores informações a respeito acessem ao site Palavra Cantada:
http://www.palavracantada.com.br/final/index.aspx


Finalmente, o vídeo de uma das canções que eu mais gosto, na verdade é difícil escolher uma:




Beijo de Um ser sendo.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Momento: Fala que eu te escuto

Nó na garganta

Vontade de gritar

...

Triste, não estou, não sou.

É que hoje foi um dia estranho, um dia que me senti peixe fora d'água, que olhei para dentro de mim e vi uma verdade que "outros" duvidaram, pensei: tenho certeza da minha verdade e logo vou comprovar, e, batata, a verdade veio à tona e eu agradeci a Deus, sou muito apegada a ele (isso é segredo/ novidade para muitas pessoas)... passou, página virada na hora, mas agora me deu um aperto, um mal estar, uma baixa estima que me cerca e as vezes/ sempre insiste em aparecer e eu precisei vomitar tolices no meu cantinho. Desculpe aos poucos leitores que passam por aqui querendo ler algo legal, ver/ ouvir indicações epifânicas, mas hoje é a cartase na sua pior forma, o muro das lamentações, porque preciso.

Enfim, como minha vida (em momentos bons ou ruins) sempre é guiada por uma trilha sonora, segue uma rock 'n' roll que eu adoro:


Eu também vou reclamar - Raul Seixas:




PS: Me senti geração Y ao extremo agora, adoro!

Beijo de Um ser sendo.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Crônica: Machado de Assis

Olá, personas...

Volto ao meu cantinho com uma preciosidade Machadiana que descobri em minhas 'andanças' na internet. Que Machado de Assis é um grande nome da nossa literatura todos sabem, mas as vezes deixam de se embebedar com sua obra, que é um deleite. Vale a pena ler a crônica abaixo, como também toda obra:


Crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888.

Bons dias!
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

- Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que...
- Oh! meu senhô! fico.
- ...Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...
- Artura não qué dizê nada, não, senhô...
- Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
- Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.


Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.

O meu plano está feito; quero ser deputado,e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.

Boas noites.


Texto extraído do livro
Obra Completa, Vol III. Machado de Assis. 3ª edição. José Aguilar, Rio de Janeiro. 1973. p. 489 - 491.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

10° Feira do Livro de Ribeirão Preto











Olá personas...
Demorei mas retornei com o que prometi no último post: Comentários e fotos da 10° Feira do Livro 2010.

Mas, devo confessar que neste ano não fui uma frequentadora assídua como fui ano passado (recorde). Fui três dias em eventos fantásticos, memoráveis, e podem acreditar, valeu por todo evento.


Para começar, estive na abertura da feira para ver a ópera do Coral Minaz: Barbeiro de Sevilha. Lindo Lindo Lindo... Vozes incríveis, epifânia garantida, é incrível como a arte, em diversas formas, é comovente. Saindo do Theatro Pedro II, totalmente anestesiada, paro para esperar o show do Clube da Esquina (Flávio Venturine, Lô Borges, Milton Nascimento), foi coisa de louco esse show, literalmente, músicas maravilhosas como: Paisagem na Janela, Lilia, Canção da América, Maria Maria... preciosidades epifânicas. Mais um para a minha lista de shows top top.


Minha segunda visita à feira foi a mais esperada, confesso, também, estava ansiosa para ver/ escutar, novamente, o querido Luiz Tatit, querido sim, não me importo em chamar de querido pessoas que eu admiro. Primeiro ele falou um pouco sobre seus últimos livros, o mediador da fala do gênio não foi lá essas coisas, mas Tatit, com todo seu talento, soube nos admirar. Em seguida ele fez um show maravilhoso, no tom irônico/sarcástico/ingênuo de sempre. Foi tão, tão, mas tão...ai ai. Dá-lhe epifânia. Para fechar com chave de ouro, depois do show Luiz Tatit autografou nosso livro, nos abraçou, senti carinho por parte dele. Me comoveu. Inesquecível.


Meu último evento na feira foi o show da Zélia Duncan, mais uma vez eu preciso confessar, pausadamente, vagarozamente, resumidamente (acho digno advérbio) que me surpreendi com a Zélia. Sim, eu sempre gostei das músicas dela, sempre acompanhei o que ela lançava, mas nunca tinha ido a um show, e ver o artista ao vivo, na performance de palco, é outra coisa. A Zélia tem a voz linda, a banda é fantástica, todos simpáticos. Foi tudo na vida o show, além dos grandes sucessos dela, ela cantou também Cássia Eller, Luiz Tatit (vibrei), Renato Russo. Demais. Escrevo lembrando cada detalhe com um sorriso no canto da boca.

Epifânia... Epifânia... Epifânia...

O que seria de mim sem as diversas formas de arte e cultura?

Nada.


Beijo de um ser sendo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Nossa, faz tempo que não apareço aqui no meu cantinho.
Tirada toda a poeira e teias de aranha pela minha ausência, vamos recomeçar.
Aconteceram muitas coisas da minha última postagem para cá. Muitas novidades no mundo, na minha vida nem tanto, ainda espero algo inesperado e novo. Não passei no concurso do SESC, e eu estudei viu, me dediquei, respondi as questões com a convicção que daria certo, não deu, aí eu 'arrumei' desculpas do tipo: eram muitos candidatos, deram preferência a alguém relacionado a àrea de animação, mas o fato é que não era para ser mesmo, trabalhar com cultura continua sendo um sonho, como dizem por aí, o que tiver que ser será.
No mais, nos acontecimentos recentes, preciso comentar sobre os poucos eventos que fui na 10° Feira do Livro de Ribeirão Preto, poucos mas memoráveis, como: salão de ideias com o escritor Rubem Alves, salão de ideias e show com o incrível Luiz Tatit entre outros. No próximo post falarei sobre o evento, postarei fotos. Aguardem.
Outro acontecimento recente e triste foi a morte do escritor português José Saramago. Para os amantes da literatura fica um vazio, mas também fica o alívio de sua imortalidade no grande legado deixado por ele! Não tem jeito, Saramago é eterno.
No dia de sua morte (18/6), passei o dia postando frases do eterno Saramago no twitter:


"Nem sua vida nem sua morte cabem numa frase" [Luiz Schwarcz sobre o amigo Saramago] - http://migre.me/QcF4 #AdeusSaramago


O artista nunca diz adeus. Meu Saramago é imortal: http://mariliamarcucci.blogspot.com/

"Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo." [José Saramago] #AdeusSaramago

Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia. [José Saramago] #AdeusSaramago

Estranho saber que nós, amantes de literatura, perdemos Saramago... #AdeusSaramago

"...somos uma pequena e trémula chama que a cada instante ameaça apagar-se ..." [Ensaio sobre a lucidez - Saramago] #AdeusSaramago

Adeus Saramago...

terça-feira, 6 de abril de 2010

Teleco, o coelhinho - Murilo Rubião




Sempre quis postar este conto do Murilo Rubião aqui no meu cantinho.


Ele foi um dos objetos de estudo do meu saudoso tcc. Eu simplesmente sou fascinada pelo fantástico e pelas figuras deste conto. Para quem não leu, vale a pena ler, e para quem já leu sabe que vale a pela reler.


Beijo.


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Teleco, o coelhinho


Por* Murilo Rubião


- Moço, me dá um cigarro?
A voz era sumida, quase um sussurro. Permaneci na mesma posição em que me encontrava, frente ao mar, absorvido com ridículas lembranças.
O importuno pedinte insistia:
- Moço, oh! moço! Moço, me dá um cigarro?
Ainda com os olhos fixos na praia, resmunguei:
- Vá embora, moleque, senão chamo a polícia.
- Está bem, moço.Não se zangue. E, por favor, saia da minha frente, que eu também gosto de ver o mar.
Exasperou-me a insolência de quem assim me tratava e virei-me, disposto a escorraçá-lo com um pontapé. Fui desarmado, entretanto. Diante de mim estava um coelhinho cinzento, a me interpelar delicadamente:
- Você não dá é porque não tem, não é, moço?
O seu jeito polido de dizer as coisas comoveu-me. Dei-lhe o cigarro e afastei-me para o lado, a fim de que melhor ele visse o oceano. Não fez nenhum gesto de agradecimento, mas já então conversávamos como velhos amigos. Ou, para ser mais exato, apenas o coelhinho falava. Contava-me acontecimentos extraordinários, aventuras tamanhas que o supus com mais idade do que realmente aparentava.
Ao fim da tarde, indaguei onde ele morava. Disse não ter morada certa. A rua era o seu pouso habitual. Foi nesse momento que reparei nos seus olhos. Olhos mansos e tristes. Deles me apiedei e convidei-o a residir comigo. A casa era grande e morava sozinho - acrescentei.
A explicação não o convenceu. Exigiu-me que revelasse minhas reais intenções:
- Por acaso, o senhor gosta de carne de coelho?
Não esperou pela resposta:
- Se gosta, pode procurar outro, porque a versatilidade é o meu fraco.
Dizendo isto, transformou-se numa girafa.
- À noite - prosseguiu - serei cobra ou pombo. Não lhe importará a companhia de alguém tão instável?
Respondi que não e fomos morar juntos.
Chamava-se Teleco.
Depois de uma convivência maior, descobri que a mania de metamorfosear-se em outros bichos era nele simples desejo de agradar ao próximo. Gostava de ser gentil com crianças e velhos, divertindo-os com hábeis malabarismos ou prestando-lhes ajuda. O mesmo cavalo que, pela manhã, galopava com a gurizada, à tardinha, em lento caminhar, conduzia anciãos ou inválidos às suas casas.
Não simpatizava com alguns vizinhos, entre eles o agiota e suas irmãs, aos quais costumava aparecer sob a pele de leão ou tigre. Assustava-os mais para nos divertir que por maldade. As vítimas assim não entendiam e se queixavam à polícia, que perdia o tempo ouvindo as denúncias. Jamais encontraram em nossa residência, vasculhada de cima a baixo, outro animal além do coelhinho. Os investigadores irritavam-se com os queixosos e ameaçavam prendê-los.
Apenas uma vez tive medo de que as travessuras do meu irrequieto companheiro nos valessem sérias complicações. Estava recebendo uma das costumeiras visitas do delegado, quando Teleco, movido por imprudente malícia, transformou-se repentinamente em porco-do-mato. A mudança e o retorno ao primitivo estado foram bastante rápidas para que o homem tivesse tempo de gritar. Mal abrira a boca, horrorizado, novamente tinha diante de si um pacífico coelho:
- O senhor viu o que eu vi?
Respondi, forçando uma cara inocente, que nada vira de anormal.
O homem olhou-me desconfiado, alisou a barba e, sem despedir, ganhou a porta da rua.
A mim também pregava-me peças. Se encontrava vazia a casa, já sabia que ele estava escondido em algum canto, dissimulado em algum pequeno animal. Ou mesmo no meu corpo, sob a forma de pulga, fugindo-me dos dedos, correndo pelas minhas costas. Quando começava a me impacientar e pedia-lhe que parasse com a brincadeira, não raro levava tremendo susto. Debaixo das minhas pernas crescera um bode que, em disparada, me transportava até o quintal. Em me enraivecia, prometia-lhe uma boa surra. Simulando arrependimento, Teleco dirigia-me palavras afetuosas e logo fazíamos as pazes.
No mais, era o amigo dócil, que nos encantava com inesperadas mágicas. Amava as cores e muitas vezes surgia transmudado em ave que possuía todas e de espécie totalmente desconhecida ou de raça extinta.
- Não existe pássaro assim!
- Sei. Mas seria insípido disfarçar-me somente em animais conhecidos.
O primeiro atrito grave que tive com Teleco ocorreu com um ano após nos conhecermos. Eu regressava da casa da minha cunhada Emi, com quem discutira asperamente sobre negócias de família. Vinha mal-humorado e a cena que deparei, ao abrir a porta da entrada, agravou minha irritação. De mãos dadas, sentados no sofá da sala de visitas, encontravam-se uma jovem mulher e um mofino canguru. As roupas dele eram mal talhadas, seus olhos se escondiam por trás de uns óculos de metal ordinário.
- O que deseja a senhora com esse horrendo animal? - perguntei, aborrecido por ver minha casa invadida por estranhos.
- Eu sou Teleco - antecipou-se, dando uma risadinha.
Mirei com desprezo aquele bicho mesquinho, de pêlos ralos, a denunciar subserviência e torpeza. Nada nele me fazia lembrar o travesso coelhinho.
Neguei-me a aceitar como verdadeira a afirmação, pois Teleco não sofria da vista e se quisesse apresentar-se vestido teria o bom gosto de escolher outros trajes que não aqueles.
Ante a minha incredulidade, transformou-se numa perereca. Saltou por cima dos móveis, pulou no meu colo. Lancei-o longe, cheio de asco.
Retomando a forma de canguru, inquiriu-me, com um ar bastante grave:
- Basta esta prova?
- Basta. E daí? O que você quer?
- De hoje em dia serei apenas homem.
- Homem? - indaquei atônito. Não resisti ao ridículo da situação e dei uma gargalhada:
- E isso? - apontei para a mulher. - É uma lagartixa ou um filhote de salamandra?
Ela me olhou com raiva. Quis retrucar, porém ele atalhou:
- É Tereza. Veio morar conosco. Não é linda?
Sem dúvida, linda. Durante a noite, na qual me faltou o sono, meus pensamentos giravam em torno dela e da cretinice de Teleco em afirmar-se homem.
Levantei-me de madrugada e me dirigi à sala, na expectativa de que os fatos do dia anterior não passassem de mais um dos gracejos do meu companheiro.
Enganava-me. Deitado ao lado da moço, no tapete do assoalho, o canguru ressonava alto. Acordei-o, puxando-o pelos braços:
- Vamos, Teleco, chega de trapaça.
Abriu os olhos, assustado, mas, ao reconhecer-me, sorriu:
- Teleco?! Meu nome é Barbosa, Antônio Barbosa, não é, Tereza?
Ela, que acabara de despertar, assentiu, movendo a cabeça.
Explodi, encolerizado:
- Se é Barbosa, rua! E não me ponha mais os pés aqui, filho de um rato!
Desceram-lhe as lágrimas pelo rosto e, ajoelhado, na minha frente, acariciava minhas pernas, pedindo-me que não o expulsasse de casa, pelo menos enquanto procurava emprego.
Embora encarasse com ceticismo a possibilidade de empregar-se um canguru, seu pranto demoveu-me da decisão anterior, ou, para dizer a verdade toda, fui persuadido pelo olhar súplice de Tereza que, apreensiva, acompanhava o nosso diálogo.
Barbosa tinha hábitos horríveis. Amiúde cuspia no chão e raramente tomava banho, não obstante a extrema vaidade que o impelia a ficar horas e horas diante do espelho. Utilizava-se do meu aparelho de barbear, de minha escova de dentes e pouco serviu comprar-lhe esses objetos, pois continuou a usar os meus e os dele. Se me queixava do abuso, desculpava-se, alegando distração.
Também a sua figura tosca me repugnava. A pele era gordurosa, os membros curtos, a alma dissimulada. Não media esforços para me agradar, contando-me anedotas sem graça, exagerando nos elogios à minha pessoa.
Por outro lado, custava tolerar suas mentiras e, às refeições, a sua maneira ruidosa de comer, enchendo a boca de comida com o auxílio das mãos.
Talvez por ter-me abandonado aos encantos de Tereza, ou para não desagradá-la, o certo é que aceitava, sem protesto, a presença incômoda de Barbosa.
Se afirmava ser tolice de Teleco querer nos impor a sua falsa condição humana, ela me respondia com uma convicção desconcertante:
- Ele se chama Barbosa e é um homem.
O canguru percebeu o meu interesse pela sua companheira e, confundindo a minha tolerância como possível fraqueza, tornou-se atrevido e zombava de mim quando o recriminava por vestir minhas roupas, fumar dos meus cigarros ou subtrair dinheiro do meu bolso.
Em diversas ocasiões, apelei para a sua frouxa sensibilidade, pedindo-lhe que voltasse a ser coelho.
- Voltar a ser coelho? Nunca fui bicho. Nem sei de quem você fala.
- Falo de um coelhinho cinzento e meigo, que costumava se transformar em outros animais.
Nesse meio tempo, meu amor por Tereza oscilava por entre pensamentos sombrios, e tinha pouca esperança de ser correspondido. Mesmo na incerteza, decidi propor-lhe casamento.
Fria, sem rodeios, ela encerrou o assunto:
- A sua proposta é menos generosa do que você imagina. Ele vale muito mais.
As palavras usadas para recusar-me convenceram-me de que ela pensava explorar de modo suspeito as habilidades de Teleco.
Frustrada a tentativa do noivado, não podia vê-los juntos e íntimos, sem assumir uma atitude agressiva.
O canguru notou a mudança no meu comportamento e evitava os lugares onde me pudesse encontrar.
Uma tarde, voltando do trabalho, minha atenção foi alertada para um som ensurdecedor da eletrola, ligada com todo volume. Logo ao abrir a porta, senti o sangue a afluir-me à cabeça: Tereza e Barbosa, os rostos colados, dançavam um samba indecente.
Indignado, separei-os. Agarrei o canguru pela gola e, sacudindo-o com violência, apontava-lhe o espelho da sala:
- É ou não é um animal?
- Não, sou um homem! - E soluçava, esperneando, transido de medo pela fúria que via nos meus olhos.
À Tereza, que acudira, ouvindo seus gritos, pedia:
- Não sou um homem, querida? Fala com ele:
- Sim, amor, você é um homem.
Por mais absurdo que me parecesse, havia uma trágica sinceridade na voz deles. Eu me decidira, porém. Joguei Barbosa no chão e lhe esmurrei a boca. Em seguida, enxotei-os.
Ainda na rua, muito excitada, ela me advertiu:
- Farei de Barbosa um homem importante, seu porcaria!
Foi a última vez que os vi. Tive, mais tarde, vagas notícias de um mágico chamado Barbosa a fazer sucesso na cidade. À falta de maiores esclarecimentos, acreditei ser mera coincidência de nomes.
A minha paixão por Tereza se esfumara no tempo e voltara-me o interesse pelos selos. As horas disponíveis eu as ocupava com a coleção.
Estava, uma noite, precisamente colando exemplares raros recebidos na véspera, quando saltou, janela adentro, um cachorro. Refeito do susto, fiz menção de correr o animal. Todavia, não cheguei a enxotá-lo.
- Sou o Teleco, seu amigo - afirmou, com uma voz excessivamente trêmula e triste, transformando-se em uma cotia.
- E ela? - perguntei com simulada displicência.
- Tereza … - sem que concluísse a frase, adquiriu as formas de um pavão.
- Havia muitas cores … o circo … ela estava linda … foi horrível … - prosseguiu, chocalhando os guizos de uma cascavel.
Seguiu-se breve silêncio, antes que voltasse a falar:
- O uniforme … muito branco … cinco cordas … amanhã serei homem … - as palavras saíam-lhe espremidas, sem nexo, à medida que Teleco se metamorfoseava em outros animais.
Por um momento, ficou a tossir. Uma tosse nervosa. Fraca, a princípio, ela avultava com as mutações dele em bichos maiores, enquanto eu lhe suplicava que se aquietasse. Contudo ele não conseguia controlar-se.
Debalde tentava exprimir-se. Os períodos saltavam curtos e confusos.
- Pare com isso e fale mais calmo - insistia eu, impaciente com as suas contínuas transformações.
- Não posso - tartamudeava, sob a pele de um lagarto.
Alguns dias transcorridos, perdurava o mesmo caos. Pelos cantos, a tremer, Teleco se lamuriava, transformando-se seguidamente em animais os mais variados. Gaguejava muito e não podia alimentar-se, pois a boca, crescendo e diminuindo, conforme o bicho que encarnava na hora, nem sempre combinava com o tamanho do alimento. Dos seus olhos, então, escorriam lágrimas que, pequenas nos olhos miúdos de um rato, ficavam enormes na face de um hipopótamo.
Ante a minha impotência em diminuir-lhe o sofrimento, abraçava-me a ele, chorando. O seu corpo, porém, crescia nos meus braços, atirando-me de encontro à parede.
Não mais falava: mugia, crocitava, zurrava, guinchava, bramia, trissava.
Por fim, já menos intranquilo, limitava as suas transformações a pequenos animais, até que se fixou na forma de um carneirinho, a balir tristemente. Colhi-o nas mãos e senti que seu corpo ardia em febre, transpirava.
Na última noite, apenas estremecia de leve e, aos poucos, se aquietou. Cansado pela longa vigília, cerrei os olhos e adormeci. Ao acordar, percebi que uma coisa se transformara no meus braços. No meu colo estava uma criança encardida, sem dentes. Morta.